← Voltar ao acervo

Private Markets: o que são e por que crescem?

O mercado global de private markets ultrapassou US$ 13 trilhões em ativos sob gestão em 2023, segundo dados da McKinsey. No Brasil, esse número ainda é pequeno em termos relativos, mas cresce a taxas que chamam atenção de qualquer gestor patrimonial sério. Por muito tempo, esse universo ficou restrito a fundos de pensão e endowments …Continued

Private Markets: o que são e por que crescem?

O mercado global de private markets ultrapassou US$ 13 trilhões em ativos sob gestão em 2023, segundo dados da McKinsey. No Brasil, esse número ainda é pequeno em termos relativos, mas cresce a taxas que chamam atenção de qualquer gestor patrimonial sério.

Por muito tempo, esse universo ficou restrito a fundos de pensão e endowments de universidades americanas. Hoje, empresários brasileiros que estruturam bem seu patrimônio, especialmente via holding, acessam as mesmas classes de ativos que instituições como a Yale Endowment usam há décadas para superar o retorno dos mercados públicos.

A questão prática é simples: em um cenário de juros em queda estrutural e bolsa volátil, onde mais se encontra retorno com menor correlação com o mercado? A resposta passa cada vez mais pelos private markets.

O que são private markets

Private markets é o conjunto de investimentos feitos fora das bolsas de valores e dos mercados públicos de dívida, não há cotação diária, não há liquidez imediata. Em troca, o investidor acessa negócios, projetos e estruturas de crédito que simplesmente não existem no mercado aberto.

As principais categorias são:

Private Equity — participação em empresas fechadas, com horizonte de 5 a 10 anos. O gestor entra, transforma a empresa operacionalmente e vende com ganho de capital.

Venture Capital — variante do private equity focada em empresas em estágio inicial. Risco maior, potencial de retorno maior.

Private Credit — empréstimos diretos a empresas, fora do sistema bancário. No Brasil, os FIDCs e CRIs estruturados por gestoras especializadas se enquadram aqui. Retornos típicos entre CDI + 3% e CDI + 8% ao ano, dependendo do risco.

Infraestrutura — participação em projetos de energia, saneamento, logística. Fluxo de caixa previsível, contratos longos, proteção contra inflação.

Real Assets — imóveis, terras agrícolas, florestas. No Brasil, o agronegócio cria oportunidades específicas nessa categoria.

Cada uma dessas classes tem perfil de risco, prazo e estrutura jurídica distinto. O que une todas é o acesso restrito e a ausência de liquidez diária, características que, paradoxalmente, são parte da fonte de retorno.

Por que os retornos dos private markets são maiores

Existe um prêmio de iliquidez. Quem aceita travar capital por 7 anos em um fundo de private equity recebe, historicamente, entre 3 e 5 pontos percentuais a mais ao ano do que o mercado de ações públicas. Esse diferencial é compensação por abrir mão da saída rápida.

O segundo fator é o universo de oportunidades. Nos Estados Unidos, há cerca de 4.300 empresas listadas em bolsa. Empresas fechadas com faturamento acima de US$ 10 milhões? Mais de 200 mil. O mercado público é uma fração pequena da economia real.

No Brasil, essa proporção é ainda mais extrema. A B3 tem pouco mais de 400 empresas com liquidez relevante. O tecido industrial e de serviços do país tem centenas de milhares de negócios que nunca abriram capital e muitos deles são exatamente onde gestoras de private equity encontram valor.

O terceiro fator é o controle sobre a gestão. Em um fundo de private equity, o gestor senta no conselho, define a estratégia e executa mudanças operacionais. Isso não existe quando se compra uma ação na bolsa.

Como o empresário brasileiro acessa private markets

Aqui está o ponto prático que muita gente ignora: o acesso a private markets no Brasil passou por uma mudança regulatória relevante nos últimos anos.

A CVM, com as Resoluções 175 e 88, modernizou o arcabouço de fundos e ampliou as possibilidades de estruturação. Fundos de investimento em participações (FIPs), FIDCs, FIIs e estruturas offshore passaram a ser mais acessíveis para investidores qualificados e profissionais.

Na prática, o empresário que já tem uma holding patrimonial tem vantagem estrutural aqui. A holding centraliza o patrimônio, permite reinvestimento sem tributação imediata do lucro distribuído e facilita o acesso a veículos de investimento que exigem aplicação mínima elevada, em geral, entre R$ 300 mil e R$ 1 milhão por fundo.

Além disso, a holding permite combinar classes de ativos de forma eficiente do ponto de vista tributário. Rendimentos de FIPs, por exemplo, têm tratamento fiscal diferente quando recebidos por uma pessoa jurídica versus por uma pessoa física. Um planejamento bem feito captura essa diferença.

Holding + private markets: a combinação que faz sentido

O empresário que distribui dividendos pesados para a pessoa física e depois tenta investir em private markets paga um custo alto: os 27,5% de IR sobre rendimentos, a alíquota regressiva de aplicações financeiras (de 22,5% para aplicações abaixo de 6 meses até 15% acima de 2 anos) e a dificuldade de acumular capital no volume necessário para acessar bons fundos.

Com a holding, o lucro fica retido na pessoa jurídica. Esse capital pode ser alocado diretamente em fundos e estruturas de private markets sem o custo da antecipação tributária. O efeito de capitalização ao longo de 10 anos é substancial.

Um exemplo concreto: uma holding com R$ 5 milhões alocados em private credit a CDI + 5% ao ano, com reinvestimento do rendimento dentro da própria estrutura jurídica, acumula significativamente mais do que o mesmo capital distribuído como dividendo para a pessoa física e reaplicado em renda fixa convencional, mesmo que a taxa bruta seja idêntica.

Essa diferença não vem de mágica. Vem de diferimento tributário e de acesso a taxas que o varejo bancário não oferece.

O que muda com private markets na carteira

A inclusão de private markets altera três características da carteira:

Correlação — private credit e infraestrutura têm correlação baixa com a bolsa. Quando o Ibovespa cai 20%, um fundo de crédito privado bem gerido não necessariamente sofre no mesmo ritmo. Isso reduz a volatilidade do patrimônio total.

Previsibilidade de fluxo de caixa — fundos de infraestrutura e real assets têm distribuições periódicas previsíveis, muitas vezes indexadas ao IPCA. Para o empresário que quer construir renda passiva estruturada, isso tem valor prático.

Horizonte de planejamento — private markets obrigam o investidor a pensar em janelas de 5, 7 ou 10 anos. Essa disciplina, por si só, melhora a qualidade do planejamento patrimonial. O capital que não pode ser sacado amanhã não é sacado por impulso.

Riscos reais que precisam estar no cálculo

Iliquidez é um risco concreto. Se o empresário precisar de capital em dois anos para expandir o negócio operacional ou para uma oportunidade de aquisição, ter parte relevante do patrimônio travado em fundos com prazo de 7 anos cria um problema.

A seleção do gestor também importa mais do que em mercados públicos. Em private equity, a diferença entre o primeiro quartil e o terceiro quartil de gestores é brutal, pode chegar a 10 pontos percentuais ao ano. Em fundos indexados de bolsa, essa dispersão é mínima. Em private markets, escolher mal o gestor tem consequência direta no retorno.

Além disso, a due diligence em private markets exige mais. Não existe cotação diária que sinalize problemas. O investidor precisa confiar na qualidade dos relatórios do gestor e no processo de monitoramento do MFO ou advisor que acompanha a carteira.

A alocação que gestores institucionais usam de referência

Endowments universitários americanos, fundos com horizonte verdadeiramente longo, alocam entre 40% e 60% do patrimônio em ativos alternativos, incluindo private markets. A Yale Endowment, referência histórica dessa estratégia, tinha 58% em alternativas em 2023.

No Brasil, o caminho é mais conservador pelo histórico de juros altos que tornaram a renda fixa uma alternativa competitiva por décadas. Com a Selic em trajetória de longo prazo mais baixa do que o ciclo 2015–2016, essa equação muda.

Gestores que atendem famílias com patrimônio complexo no Brasil trabalham hoje com alocações entre 15% e 30% em private markets, dependendo da liquidez necessária e do horizonte de cada cliente. Não há número certo, há o número adequado para cada estrutura.

Como avaliar se faz sentido para o seu caso

Antes de qualquer alocação em private markets, três perguntas precisam ter resposta clara:

Primeiro: qual o prazo de liquidez que o patrimônio total comporta? Se há eventos previsíveis de consumo de capital nos próximos 3 anos, expansão do negócio, compra de imóvel, sucessão planejada, o percentual alocável em ilíquidos é menor.

Segundo: a estrutura jurídica está adequada? A holding é o veículo mais eficiente para acessar e manter esses investimentos. Fazer isso via pessoa física tem custos tributários e operacionais que corroem parte do retorno adicional.

Terceiro: quem vai selecionar e monitorar os gestores? Private markets não é produto de prateleira. A qualidade do advisor que acompanha a carteira, avalia os fundos e monitora o ciclo de vida de cada investimento é determinante para o resultado final.

Private markets é uma classe de ativos consolidada globalmente que chegou ao Brasil com mais força à medida que o mercado de capitais amadureceu e a regulação evoluiu. O empresário que entende como funciona, e como estruturar o acesso de forma eficiente, tem uma ferramenta a mais para construir patrimônio com consistência.

Se você quer entender como essa alocação funcionaria dentro da sua estrutura patrimonial específica, a Jera Capital pode mapear as oportunidades e os ajustes necessários para que a estratégia faça sentido no seu caso concreto.